sábado, 28 de abril de 2007

Florbela Espanca


Mentiras


Tu julgas que eu não sei que tu me mentes

Quando o teu doce olhar pousa no meu?

Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?

Qual a imagem que alberga o peito meu?
Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo

O bom sonho da feroz realidade…

Não palpita d´amor, um coração

Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;

Perpassa nos teus olhos desleais

O gelo do teu peito de granito…
Mas finjo-me enganada, meu encanto,

Que um engano feliz vale bem mais

Que um desengano que nos custa tanto!


Florbela Espanca - A mensageira das violetas





Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida!...

Não vejo nada assim enlouquecida,

Passo no mundo, meu amor, a ler,

no misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida.

Tudo no mundo é frágil, tudo passa,

quando me dizem isto toda a graça,

duma boca divina fala em mim

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»