sábado, 28 de abril de 2007

Fernando Pessoa e seus heterônimos


Álvaro de Campos

Mestre

Mestre, meu mestre querido!

Coração do meu corpo intelectual e inteiro!

Vida da origem da minha inspiração!

Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias,

nem de ti nem de nada,

Alma abstrata e visual até aos ossos,

Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,

Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,

Espírito humano da terra materna,

Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...


Mestre, meu mestre!

Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,

Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,

Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,

Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,

Natural como um dia mostrando tudo,

Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.

Meu coração não aprendeu nada.

Meu coração não é nada,

Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!

Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,

Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,

Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,

Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento

Pela indiferença de toda a vila.

Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,

Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,

E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.

Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,

Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?

Por que é que me chamaste para o alto dos montes

Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?

Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela Como quem está carregado de ouro num deserto,

Ou canta com voz divina entre ruínas?

Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,

Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?
Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele

Poeta decadente, estupidamente pretensioso,

Que poderia ao menos vir a agradar,

E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.

Para que me tornaste eu?

Deixasses-me ser humano!
Feliz o homem marçano

Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada, Que tem a sua vida usual,

Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,

Que dorme sono,

Que come comida,

Que bebe bebida, e por isso tem alegria.
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.

Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.

Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.

Mário Quintana



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim...

Suas palavras seriam as mais simples do mundo,

porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir...Sim!

Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas coresnas lanternas chinesas de papel!

Trago-te palavras, apenas...

e que estão escritas do lado de fora do papel...

Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia...

como uma pobre lanterna que incendiou!
SAUDADE
Na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.
Via você no ontem , no hoje, no amanhã...Mas não via você no momento.
Que saudade...

Florbela Espanca


Mentiras


Tu julgas que eu não sei que tu me mentes

Quando o teu doce olhar pousa no meu?

Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?

Qual a imagem que alberga o peito meu?
Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo

O bom sonho da feroz realidade…

Não palpita d´amor, um coração

Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;

Perpassa nos teus olhos desleais

O gelo do teu peito de granito…
Mas finjo-me enganada, meu encanto,

Que um engano feliz vale bem mais

Que um desengano que nos custa tanto!


Florbela Espanca - A mensageira das violetas





Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida!...

Não vejo nada assim enlouquecida,

Passo no mundo, meu amor, a ler,

no misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida.

Tudo no mundo é frágil, tudo passa,

quando me dizem isto toda a graça,

duma boca divina fala em mim

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»